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A crise que envolve ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) se intensificou ao longo da primeira semana de setembro e passou por uma sucessão de revelações, acusações e decisões que atingiram diretamente a Polícia Federal.
A BBC News Brasil reuniu os principais acontecimentos que marcaram a escalada da crise, envolvendo os ministros Alexandre de Moraes, André Mendonça, Flávio Dino e o presidente da Corte, Edson Fachin.
01/09: mensagens de Vorcaro atribuídas a Moraes vêm a público
A crise ganhou força em 1º de setembro, quando André Mendonça, relator do caso Banco Master no STF, retirou o sigilo de um relatório da Polícia Federal que apontava possíveis conversas entre o ministro Alexandre de Moraes e o banqueiro Daniel Vorcaro.
Parte das mensagens já havia sido revelada pelo jornal O Estado de S. Paulo.
O relatório da PF foi produzido a partir de uma solicitação feita pelo próprio Mendonça. Investigadores encontraram no celular de Vorcaro mensagens que, segundo a apuração policial, provavelmente tinham Moraes como interlocutor.
Os documentos indicavam que os dois teriam conversado previamente sobre uma operação que poderia atingir o banqueiro.
Também foram identificadas mensagens nas quais Vorcaro teria pedido ajuda a Moraes para tratar de assuntos de seu interesse com o diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, e com o procurador-geral da República, Paulo Gonet.
Outro ponto levantado pela investigação envolve um contrato de R$ 131 milhões entre o Banco Master e o escritório Barci de Moraes, comandado por Viviane Barci de Moraes, esposa de Alexandre de Moraes. Segundo o relatório, o ministro teria feito ajustes na minuta do contrato.
A PF também apontou um número de telefone como sendo atribuído a Moraes. A identificação foi reforçada por sua associação a contas digitais vinculadas ao nome do ministro.
Diante das informações, Mendonça pediu que o caso envolvendo Moraes fosse analisado pelo Plenário do STF. Se acolhida, a medida poderia levar à abertura formal de investigação contra um ministro da própria Corte.
01/09: PGR questiona investigação determinada por Mendonça
No mesmo dia, o procurador-geral da República, Paulo Gonet, pediu que André Mendonça anulasse a decisão que havia determinado a produção do relatório da Polícia Federal.
Para Gonet, Mendonça teria ultrapassado os limites de atuação de um magistrado durante a fase pré-processual ao determinar o aprofundamento das investigações.
O procurador-geral sustentou que uma eventual investigação envolvendo um ministro do STF deveria ser decidida pelo próprio tribunal.
Na avaliação de Gonet, Mendonça já tinha conhecimento de que entre os possíveis envolvidos havia autoridades com foro por prerrogativa de função, incluindo Alexandre de Moraes.
Por isso, segundo o PGR, a determinação para que a PF aprofundasse a apuração acabou produzindo, na prática, uma investigação sobre outro integrante do Supremo, algo que não poderia ser determinado individualmente por um ministro da Corte.
02/09: Fachin promete medidas diante da crise
Com a tensão instalada no Supremo, Edson Fachin afirmou, em 2 de setembro, que adotaria as providências necessárias depois de analisar os fatos e observar os procedimentos institucionais.
O presidente do STF declarou que anunciaria as medidas no momento adequado e sem precipitação.
A postura de Fachin provocou avaliações diferentes entre juristas.
Para o professor Thiago Bottino, da FGV Direito Rio, o presidente do STF estaria desempenhando um papel adequado diante de uma situação excepcional. Já o jurista Joaquim Falcão avaliou que a reação de Fachin era tímida diante da gravidade dos acontecimentos.
O episódio também trouxe novamente ao debate a situação do ministro Dias Toffoli, citado em relatório da PF por causa da venda de parte de um resort a um fundo ligado ao Banco Master. O caso envolvendo Toffoli foi tratado em uma reunião reservada com os ministros da Corte.
02/09: Mendonça confirma encontro com Vorcaro
Ainda em 2 de setembro, André Mendonça confirmou que havia se reunido com Daniel Vorcaro em março de 2025, em São Paulo.
O ministro também confirmou ter se encontrado, naquele mesmo mês, com o advogado do banqueiro.
A confirmação ocorreu após o jornalista Paulo Motoryn divulgar informações sobre o encontro em seu Substack.
Segundo a apuração, a reunião aconteceu em 14 de março de 2025, durou cerca de duas horas e ocorreu em um instituto fundado por Mendonça.
O ministro afirmou que o encontro havia sido solicitado pelo próprio Vorcaro e que sua participação se limitou a ouvi-lo.
Mendonça disse que o assunto tratado foi a suspensão da tutela provisória 976, processo que tramitava no STF e envolvia créditos de precatórios de interesse do Banco Master.
Informações divulgadas posteriormente apontaram que a reunião teria sido articulada durante semanas pelo então advogado do Banco Master, Ciro Soares, e pelo deputado federal Cezinha de Madureira.
Segundo os relatos, mensagens e áudios encontrados no celular de Vorcaro indicariam que Mendonça já havia sido procurado sobre a situação envolvendo o Banco Master.
03/09: Mendonça deixa instituto após revelação de contratos
Na manhã de 3 de setembro, André Mendonça anunciou sua saída da sociedade do Instituto Iter, entidade fundada por ele e voltada a cursos jurídicos e atividades de aperfeiçoamento.
A decisão ocorreu depois que contratos públicos firmados pelo instituto passaram a receber atenção.
Mendonça e sua esposa eram cotistas da entidade, que, em pouco mais de dois anos, firmou 28 contratos com órgãos públicos de diferentes partes do país, somando R$ 10,7 milhões.
O levantamento foi realizado a partir de informações disponíveis no Portal Nacional de Contratações Públicas.
Todos os contratos identificados foram realizados por meio de dispensa ou inexigibilidade de licitação. Essas modalidades são previstas na legislação e sua utilização, isoladamente, não significa que tenha ocorrido irregularidade.
Ao anunciar sua saída, Mendonça afirmou que transferiu todas as suas cotas e as de sua esposa sem receber qualquer contrapartida financeira.
Segundo o ministro, eventuais valores correspondentes às cotas permaneceriam destinados a projetos sociais e educacionais. Ele também declarou que nunca obteve lucro com o instituto.
03/09: Moraes reage e pede providências contra Mendonça
A crise mudou novamente de direção em 3 de setembro, quando Alexandre de Moraes tornou públicos relatórios de inteligência da Polícia Federal contendo acusações contra André Mendonça.
Os documentos foram encaminhados ao presidente do STF, Edson Fachin, para que fossem avaliadas as providências cabíveis.
Moraes apontou possíveis práticas de improbidade administrativa, crimes de responsabilidade e abuso de autoridade.
A reação veio depois de Mendonça ter questionado a atuação de Moraes em investigações relacionadas ao escândalo dos descontos indevidos no INSS e ao Banco Master.
Mendonça havia acusado Moraes de comprometer a imparcialidade judicial e de favorecer determinados grupos políticos.
Entre as suspeitas apresentadas por Moraes estavam suposta interferência na condução de investigações, irregularidades em tratativas envolvendo eventual colaboração premiada e direcionamento de alvos para investigação por razões pessoais ou políticas.
Os documentos também abordaram a atuação de agentes da Polícia Federal em investigações relacionadas ao caso do INSS.
08/09: Mendonça afasta o comando da Polícia Federal
Na terça-feira, 8 de setembro, André Mendonça determinou o afastamento preventivo do diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, e do diretor de Inteligência Policial, Leandro Almada da Costa.
Segundo Mendonça, Andrei Rodrigues teria conhecimento da produção e do conteúdo de relatórios de inteligência que atingiram o próprio ministro.
Mendonça também afirmou que ele e o advogado-geral da União, Jorge Messias, vinham sendo submetidos a um suposto monitoramento sistemático considerado ilegal.
A decisão teve origem em pedido apresentado pelo partido Novo.
O ministro determinou que a Segunda Turma do STF analisasse a medida em sessão virtual extraordinária.
O julgamento chegou a formar maioria pela manutenção do afastamento dos dirigentes da PF, mas foi interrompido após pedido de vista do ministro Gilmar Mendes, que levantou dúvidas sobre a competência da Turma para analisar o caso.
A decisão provocou reação dentro da Polícia Federal. Os diretores da corporação colocaram seus cargos à disposição do diretor-geral substituto, William Marcel Murad.
Em manifestação conjunta, eles classificaram o afastamento de Andrei Rodrigues como injustificado e rejeitaram acusações de atuação não republicana.
A Advocacia-Geral da União também pediu a suspensão do afastamento dos dirigentes.
A AGU alegou risco de grave impacto sobre a ordem pública e administrativa e sustentou que a decisão interferia na competência constitucional do presidente da República para nomear e exonerar o diretor-geral da Polícia Federal.
Fachin determinou então que Mendonça se manifestasse sobre o pedido no prazo de 72 horas.
09/09: Dino determina retorno de Andrei Rodrigues
Na quarta-feira, 9 de setembro, Flávio Dino determinou a reintegração de Andrei Rodrigues ao cargo de diretor-geral da Polícia Federal.
A decisão também determinou o retorno de Leandro Almada da Costa à Diretoria de Inteligência Policial.
Dino estabeleceu ainda que não fossem impostas novas medidas cautelares pessoais contra os dois dirigentes por atos praticados no exercício regular de suas funções.
A decisão, porém, seria posteriormente suspensa pelo presidente do Supremo.
09/09: Fachin suspende decisões de Mendonça e Dino
No fim da tarde de 9 de setembro, Edson Fachin interveio diretamente na disputa.
O presidente do STF suspendeu a decisão de André Mendonça que havia afastado Andrei Rodrigues e Leandro Almada e também suspendeu a decisão de Flávio Dino que havia determinado o retorno dos dois aos cargos.
Fachin justificou a medida pela necessidade de preservar a ordem pública e a integridade institucional do Supremo.
Segundo o presidente da Corte, a sucessão de decisões de ministros do próprio tribunal sendo questionadas ou sobrepostas por outros integrantes criou um cenário de conflito institucional que precisava ser contido.
Fachin retira inquérito das Fake News da relatoria de Moraes
Na mesma decisão, Fachin retirou de Alexandre de Moraes a relatoria do Inquérito das Fake News, preservando os casos que já possuem decisões em andamento.
Os demais procedimentos passam a ficar sob responsabilidade do próprio presidente do STF.
Fachin também retirou parte do caso relacionado ao Banco Master da relatoria de André Mendonça.
O processo envolve, entre outros pontos, conversas entre Alexandre de Moraes e Daniel Vorcaro que haviam sido divulgadas no contexto da investigação.
Mendonça havia levantado a possibilidade de abertura de investigação para apurar a conduta de Moraes.
15/09: STF terá novo julgamento sobre o caso
Fachin marcou para terça-feira, 15 de setembro, o julgamento que deverá analisar o relatório da Polícia Federal sobre a relação entre Alexandre de Moraes e Daniel Vorcaro.
Os ministros deverão decidir se haverá abertura de investigação contra Moraes.
A sequência de acontecimentos transformou uma disputa entre ministros em uma crise institucional que alcançou a Polícia Federal, provocou decisões conflitantes dentro da Corte e levou o presidente do STF a intervir diretamente para tentar conter a escalada.
Fonte: BBC News Brasil